entrevista

0

Cacau Amaral e Cadu Barcellos no Porradão de 20!

Por: Celso Athayde - CUFA
  • Facebook
  • Orkut
  • Twitter

Cacau e Cadu

Cacau Amaral e Cadu Barcelos (foto: www.celsoathayde.com.br/2010)

O Porradão de hoje é com dois daqueles que estão se destacando como as mais bem-sucedidas promessas do cinema nacional, tendo dirigido dois curtas que compõe o filme “5 X Favela – Agora por nós mesmos”.

Cadu Barcellos, 22 anos, integrante da organização Observatório das Favelas. Morador do Complexo da Maré e diretor do filme “Deixa Voar”.

Cacau Amaral, 36 anos, vive em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Dirigiu junto com Rodrigo Felha o filme “Arroz com feijão”.

Desliguem os celulares que a sessão já vai começar!

Quem eram vocês antes e quem são agora?

01 Cadu Barcellos: Eu era o Cadu Barcellos, morador do Complexo da Maré, um moleque de 23 anos que pra muitos estava remando contra a maré querendo fazer cinema, uma arte elitista, e cara que meus amigos familiares e vizinhos não viam como algo para um favelado. Hoje sou o Cadu Barcellos, morador do complexo da Maré, Cineasta que provou a muita gente que podemos sim ser cineastas, advogados, médicos, astronautas, atores e etc.

2 – Cacau Amaral: A mídia se interessou muito por nossas histórias e entendo isso como uma coisa boa. Mesmo sabendo que internamente não muda muita coisa. Sou o mesmo Cacau Amaral de cinco anos atrás, mas com uma oportunidade a mais de aumentar o bolo de amizade e cooperação profissional. Fazia filmes com meus amigos da CUFA, do Mate com angu e sempre esbarrava com outras galeras pelos festivais e debates, mas agora pude me aproximar muito mais do Vidigal, da Maré… Conheci pessoas muito bacanas e levo isso pra minha vida.

Um dos pontos comuns em todos os curtas que compõem o filme, seja na leveza e ingenuidade que propõe alguns temas ou no peso que propõe outros, é que a noção de certo e de errado é relativa. Essa noção de ética já foi uma dúvida em algum momento da vida de vocês?

3- Cadu Barcellos: O que é certo ou errado, a linha da legalidade e da moralidade são bem mutáveis pra quem mora na favela e pra mim não é diferente. Tive dúvidas em muitos momentos e acho que posso voltar a tê-las e acho isso muito bom porque me faz refletir sobre o espaço em que vivo e a sociedade em que eu ando, crio, recrio, discuto e quero mudar.

4- Cacau: Tive uma infância isolada dentro de meu bairro. A única experiência cultural fora dele era assistir o filme dos Trapalhões no fim do ano e ver o Papai Noel chegar de helicóptero no Maracanã, tudo nas férias de verão. Durante todo resto do ano, aprendia uma ética muito peculiar com meus vizinhos e quando comecei a frequentar o centro da cidade tive vergonha dessa forma de pensar. Tentei imitar as pessoas de outros lugares, mas o convívio com vários pensadores me trouxe referências que me fizeram perceber a babaquice que estava praticando e inverti o processo de novo: passei a negar a cultura hegemônica e a gritar que minha cultura é que era foda. Hoje vejo que tudo valeu. Esse transitar me fez gozar um novo momento, onde pude agregar experiências de todos os lados e engrossar meu banco cultural.

O título do “agora por nós mesmos” sugere a mensagem de que foram necessários quase 50 anos para que um filme intitulado “5 vezes favela” fosse realmente dirigido por moradores de favelas. O que no cenário do cinema nacional atual favorece a realização de produtores de favelas e periferias e quais ainda continuam sendo os principais empecilhos?

5- Cadu Barcellos: O que ajuda é o “boom” tecnológico com câmeras digitais, celulares, agora câmeras HD’s que permitem que a gente experiente, faça e faça, coloque a mão na massa. Mas ao mesmo tempo muitos de nossos filmes não têm visibilidade e mercadologicamente falando ainda não fomos inteiramente absorvidos.

6- Cacau: O grito da periferia passa a ser ouvido. Essa voz sempre ecoou em três aspectos: num primeiro momento como um lamento infinito, sem saída; depois como o apontamento de um caminho de desgraça para ambos os lados e num terceiro momento tendo como propósito maior a visão de solidariedade. À medida que os mais privilegiados entendem que a segregação trará consequências para eles mesmos, cria-se esse terceiro momento onde aparentemente a união reina entre a população. Mas sabemos que no fundo isso é só um apontamento, uma vontade. Lutamos para que essa idéia se torne uma união de fato, pois hoje ela acontece apenas entre uma minoria. Tenho fé que 5x favela – agora por nós mesmos contribuirá para esse futuro que tentamos imprimir.
O principal empecilho é o preconceito. Não podemos achar que todo brasileiro tem a mente aberta, pois nem todo mundo teve a oportunidade de conhecer seu país. Se não conhecemos o outro não podemos enxergá-lo como nós mesmos, mas à medida que temos acesso a essas pessoas, temos a oportunidade de sentir na pele o que eles sentem. Acredito que nosso filme é uma oportunidade para muitos brasileiros que nunca tiveram acesso à favela, o tenham através da tela do cinema. Pelo que estou percebendo as pessoas confiam no “agora por nós mesmos” e entendem nosso enquadramento da favela como uma real oportunidade de conhecê-la. A exposição desse espaço; tenso, dramático e alegre ao mesmo tempo; é a melhor forma de corroermos o preconceito, que foi construído em cinco séculos de cultura. Essa virada que vivemos hoje depende de muito trabalho até que tenhamos força para lutar de igual pra igual. Não fazemos isso pela periferia. Fazemos pelo Brasil.

“Cinco vezes favela”, lançado em 1962, ficou marcado com um dos filmes fundamentais para o advento do cinema novo. Alem do inegável legado social, o que esperam dessa nova versão ?

7- Cacau: O cinema é uma arte de vários braços, entre eles uma ferramenta de proposição de comportamentos. O cinema norte-americano passou um século impondo seu modo de ser ao resto do mundo. Não quero fazer juízo disso, mas entendo que o cinema pode e deve ser usado pela América Latina para difundir nossos valores dentro e fora dela. Fiquei feliz em ver que a crítica européia tem olhos para esse movimento e tenho muito orgulho do em fazer parte disso.

8- Cadu Barcellos: Acho que esse filme também é um marco quando penso que agora é “por nós mesmos”, são realidades, histórias que muitos já até ouviram por ai, mas não estavam impressas cinematograficamente falando, são historias que agora o mundo vai poder ver. E esse filme abre uma porta que esteve há muito tempo trancada, é mostrar um trabalho que vem sendo reconhecido pela crítica, em festivais.

Querem ler mais? A entrevista continua no site de Celso Athayde. Clique aqui e leia tudo que os diretores Cadu Barcellos (Deixa Voar) e Cacau Amaral (Arroz com Feijão, em parceria com Rodrigo Felha) falaram!

Porradão de 20

www.celsoathayde.com.br/2010


6

Alessandro Buzo entrevista Cacau Amaral

Por: 5xFavela
  • Facebook
  • Orkut
  • Twitter

Conheci o Cacau Amaral, por volta de 2002 no Rio de Janeiro, nos rolê com o pessoal do Movimento Enraizados, ele era integrante do grupo Baixada Brodhers.

Ele venho cantar na primeira edição do meu evento “Favela Toma Conta”, na rua da minha casa no Itaim Paulista no ano de 2004. Depois disso nos encontramos várias vezes, ele sempre leu meus livros e eu acompanhava seus corres e lembro dele se aventurando (ainda bem) pelo audio visual, recebia emails convocando pra filmagens de seus primeiros curtas.

Cacau Amaral é uma pessoa sincera, amiga e daqueles que tem o dom da disposição.
Hoje ele é um dos diretores do premiado 5X Favela , Agora Por Nós Mesmos, em cartaz nos cinemas.
Dá um puta orgulho ver o amigo crescer, pra sabermos mais sobre esse momento especial na sua vida, entrevistamos ele com exclusividade para nossos Blog´s.
www.buzo10.blogspot.com
www.buzoentrevista.blogspot.com
www.nossocinemabr.blogspot.com

Alessandro Buzo: Cacau Amaral, te conheci no Hip Hop, no grupo Baixada Brodher, qual sua ligação atual com o movimento ??

Cacau Amaral: Estou produzindo um CD chamado “O cinema é igual o rap”. Nele mostro o paralelo entre as duas faces de minha obra, pois da mesma forma que decidi fazer rap após ouvir “Hip hop cultura de rua”, decidi fazer filmes ao assistir os filmes da cultura “faça você mesmo”. Fora isso, gravei recentemente a música Tensão, agressão, reconciliação, (http://www.myspace.com/cacauamaral) para o CD do Antizona, com outros 9 MCs cariocas; entre eles Slow, Dudu de Morro Agudo e Mr Boca. Em 5x favela, fiz questão de deixar a marca do hip hop, com vários grafiteiros cariocas nos intervalos das histórias e MV Bill assinando a música tema com Afroreggae.

Antes produzi a Lica, Soul Cris, Bia, Sandra MC e Charlene na música Guerreira que é guerreira nunca gela, do CD Mulheres do hip hop. É muito louco produzir cinco minas do Rio Grande do Sul, Paraná, Ceará, Acre e tal. Fiz um loop, enviei pra elas fazerem a letra e gravarem com o Fábio ACM e MR Zoy. Depois eles me enviaram a capela e mixei em meu estúdio. O Resultado foi muito positivo. Acabei colocando na trilha sonora de meu filme Guerreiras do Brasil.
Também tenho feito muito rap pro cinema. Em 1 Ano e 1 Dia produzi um, além de colocar o Poder Consciente; e em Melhor que um poema produzi 11 raps, um para cada B.Boy que aparece no filme: Jagal, Reis, Gaúcho, e mais um montão.

Buzo: Você e seu grupo cantaram em 2004 no Itaim Paulista, no primeiro FAVELA TOMA CONTA ? O que lembra desse dia ?

Cacau Amaral: Lembro do Ferrez; do Nino Brown e principalmente da Giovana, que acolheu eu e Dmc na casa de seus pais. Mas a maior lição que tive nesse dia foi ver a molecada sentada no meio-fio lendo gibi da turma da Mônica e você falando sobre seu sonho de montar uma livraria. Parece que foi ontem. Tenho tudo isso filmado. Quem sabe a gente monta um documentário com essas imagens.

Buzo: Hoje o evento vai para 23a edição, como vê a importancia da continuidade ?

Cacau Amaral: Tenho muito orgulho de ter participado do primeiro Favela Toma Conta, ainda mais sabendo que ele continua rendendo frutos até hoje. Você é um guerreiro e merece todo sucesso do mundo. Os grupos ganham com isso por terem espaço pra se apresentar, mas quem ganha muito mais ainda é a comunidade, que tem a oportunidade de curtir música popular de verdade. E também de conhecer a literatura, começando cedo com gibis, migrando pros romances e fechando o ciclo, escrevendo.

Buzo: Como e quando teve o primeiro contato com o Audio Visual ?

Cacau Amaral: Quando gravamos o clipe Ataque verbal, em 2002.
Sempre sonhei com esse clipe e ao descobrir que ele custava muito mais do que poderia pagar, resolvemos produzir nós mesmos. Tinha muita gente boa na CUFA ajudando a gente: Miguel, Cacá, Godot, Dido, Dragaud. Esses caras mostraram o que é cinema pra gente. Minha intenção era só gravar o clipe. Não pensava em fazer filmes, mas fui fisgado pela arte. Afinal, o cinema é igual o rap.

Buzo: Qual foi seu primeiro documentário e que ano foi isso ?

Cacau Amaral: 1 Ano e 1 Dia. É a maior realização de minha vida, depois de 5x favela. Foi logo depois do clipe. Pra produzir o clipe tivemos que estudar e estudar muito. Assistia tudo relacionado ao cinema brasileiro… soviético… Fiquei apaixonado pelos filmes de Vertov. Filmamos a festa de um assentamento e roteirizei o documentário na ilha de edição. Foi um dia de filmagem e oito meses de edição, porque não sacava nada do assunto. A única experiência havia sido o clipe. Aí o Rafael Dragaud me ensinou a fazer roteiro clássico pra ficção. Dividi todo material filmado em 12 passos, de acordo com o livro “O herói de mil faces”. Era o que tinha em mãos. Foi só pra mostrar pros amigos, mas acabei ganhando três prêmios: o primeiro na Mostra do Filme Livre, no Rio; o segundo no Festival da Unioeste, Paraná e por fim um prêmio internacional, na Mostra de Jovens Realizadores do Mercosul. Tenho muito orgulho desse filme. Hoje tive mais uma resposta positiva pra ele. Resisti durante cinco anos à mutilação de 1 Ano e 1 Dia, mas agora que o youtube aceita filme de 15 minutos, pude disponibilizá-lo na íntegra. Fiquei muito feliz, pois 12 horas após levantar o filme, mais de cem pessoas já haviam azssistido. O link é esse.

Buzo: Imaginava chegar onde chegou ? Ter a visibilidade que o 5X Favela te deu agora ?

Cacau Amaral: Imaginava e imagino muito mais. Tenho o maior prazer em falar isso sem nenhuma arrogância, porque 5x favela é fruto de um trabalho longo, meu e de um montão de gente que nunca desistiu. Mas sei que esse não é o fim da linha. Muitos e muitos filmes virão. Temos muitas histórias pra contar ainda. Muitas histórias.

Buzo: Você assistiu meu filme “Profissão MC”, o que achou dele ?

Cacau Amaral: Achei uma puta iniciativa. O mercado cinematográfico é restrito e isso não é exclusividade do Brasil. Tanto eu como você poderíamos cruzar os braços e colocar a culpa nos governos ou em outros cineastas, mas o mais coerente é correr atrás do prejuízo. Fazer um filme não é tarefa fácil pra ninguém, na periferia ou fora dela.
Profissão MC é mais uma obra de guerrilha, uma referência pra uma porrada de gente que poderá falar: Alessandro Buzo é um cineasta com a minha cara. Ele se veste igual a mim, tem os mesmos costumes que eu. Se ele pode eu também posso.

Buzo: Filmes nacionais que marcaram sua vida ?

Cacau Amaral: O mundo mágico dos trapalhões, Gangazumba, Carolina, Manual prático pra atropelar cachorro, Pixote, Durval discos, A ópera do malandro, O pagador de promessas, Cidade de Deus, Compasso de espera, O invasor, À meia-noite levarei sua alma, Os saltimbancos trapalhões.

Buzo: Baixada Fluminense ?

Cacau Amaral: Periferia é Periferia em qualquer lugar

Buzo: Periferia, existe um BOOM cultural, como vê a cena da cultura na periferia e o que destaca ?

Cacau Amaral: Há muito tempo as pessoas mais visionárias já perceberam que caminhamos para um futuro onde a única alternativa de sobrevivência será a tolerância. O passado nos mostrou que todo extremismo leva a consequências desastrosas. A hegemonia da cultura centralizada não tem trazido benefícios para as pessoas e por mais que certas mentes preconceituosas resistam em aceitar, a periferia aprendeu a viver em harmonia entre si. A falta de uma porrada de coisas que temos direito nos fez entender que a solidariedade não é apenas uma virtude, mas uma arma. Sem ela nunca teríamos chegado onde chegamos. Agora é a hora de dividirmos nosso conhecimento com nossos vizinhos do centro.

Dentro desse contexto destaco o hip hop que nunca se calou diante das atrocidades impostas à periferia. Se hoje o cinema colhe frutos desse boom, é porque vários malucos perderam noites e mais noites de sono difundindo essa cultura, primeira dentro da própria periferia e agora fora dela.

Buzo: Qual o seu proximo projeto no cinema ?

Cacau Amaral: Estou terminando um roteiro para o próximo longa. Quero contar muitas histórias sobre nosso país. Tem muita coisa que vemos e vivemos dentro e fora da periferia. Ela é um retrato 3 por 4 do Brasil.
Mas agora estou 100% dedicado a 5x favela. Tivemos a primeira consagração com a conclusão do filme, depois com a crítica – que adorou a obra. Agora é a vez da consumação com a presença do público nas salas e garantia de que virão muitos outros filmes. O público é a figura mais importante nessa história, pois fazemos o filme pra ele.

Buzo: Um ator brasileiro ?
Cacau Amaral: Lázaro Ramos.

Buzo:Uma atríz, também brasileira ?
Cacau Amaral: Roberta Rodrigues.

Buzo: Um diretor ?
Cacau Amaral: Cadu Barcelos. Fiquei muito impressionado com sua história no 5x.

Buzo: Como foi ganhar prêmio com o 5X Favela, como foi o momento ?
Cacau Amaral: Estava sentado com o elenco assistindo a cerimônia de premiação quando anunciaram o primeiro prêmio de 5x favela, “Melhor filme pelo juri popular”. Fiquei doido. Corri pulando pro palco pra receber a estatueta e fizemos um discurso inflamado, como se fosse o último de nossas vidas. Sentei feliz páca e enquanto ainda me ajeitava no lugar, anuncia-se o segundo prêmio, “Melhor trilha sonora”. Depois foram o de “Melhor montagem”, “Melhor roteiro”, “Atriz coadjuvante”, “Ator coadjuvante” e o prêmio maior do festival: “Melhor filme pelo júri oficial”. Foi muito maneiro. Ficamos cansados de sentar e levantar sete vezes.

Buzo: Lançar comercialmente o filme, como tem sido as exibições de Pré-Estréia?

Cacau Amaral: Antes mesmo de lançarmos o filme fomos selecionados para o festival de Cannes. Estava com muito medo da crítica daquele país, pois fizemos o filme pensando em nós mesmos. Não fazíamos ideia se nossas piadas funcionariam fora do Brasil, mas pra nossa surpresa fomos aplaudidos de pé por dez minutos.

No Brasil começamos com duas prés em São Paulo, ambas lotadas. A primeira com debate, onde percebemos que o púbico gostou muito do filme. Esse termômetro foi imprescindível para vermos que estávamos no caminho certo. Todos entenderam nossa mensagem. Depois foi a vez do Rio. Cinema igualmente lotado. De lá pra cá fizemos vários debates, no Cinecufa, Em O Globo, um só para professores. A cada bate papo sentimos mais e mais a sensação que fizemos um bom trabalho.

Buzo:Um sonho?
Cacau Amaral: Tenho muitos. Continuar fazendo filmes, lançar um novo disco de rap e contribuir com a educação cinematográfica do Brasil.

Buzo: Quem é CACAU AMARAL no dia a dia?

Cacau Amaral: Prefiro deixar meus filmes falarem por mim.

Buzo: Considerações finais?

Cacau Amaral: A melhor parte disso tudo é saber que minha obra a cada dia se aproxima mais e mais do que me propus a fazer desde o início. Seja no cinema, na TV, no teatro ou na música; o que mais importa pra mim é o conteúdo. E sempre que puder dar entrevistas pra meus irmãos e eles perceberem que contribuí pra que o Brasil fosse um país melhor para se viver, terá valido a pena.

DMC e Cacau Amaral (formavam o Baixada Brothers), na cozinha da minha casa em 2004, no dia da primeira edição do evento “Favela Toma Conta” que acontecia no momento da foto, em frente da minha casa.


0

Márcio Vito conversa sobre 5x Favela com o Blog Cinescópio, do portal Abril.com!

Por: 5xFavela
  • Facebook
  • Orkut
  • Twitter

Márcio Vito

Márcio Vito no episódio 'Acende a Luz', de Luciana Bezerra

Por Bruno Dias

Depois dos sucessos de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, onde a estética da pobreza e as favelas cariocas foram expostas para o mundo, ninguém imaginava que algum outro filme pudesse alcançar os mesmos resultados. Fora isso, muitos já começaram a torcer o nariz para a banalização desse tipo de temática. E foi justamente quando não se esperava outra produção de sucesso nesse estilo, que o filme colaborativo “5x Favela, Agora por nós mesmos”, projeto coordenado pelo cineasta Cacá Diegues e Renata Magalhães, que estreou na última sexta (27) nos cinemas brasileiros, surpreendeu críticos ao redor do mundo e tem tudo para conquistar o público no Brasil.

Para se ter ideia, “5x Favela, Agora por nós mesmos” foi muito aplaudido durante o Festival de Cannes deste ano e sagrou-se o grande vencedor da 3ª edição do Festival de Cinema de Paulínia, levando para casa sete prêmios, entre eles o de melhor filme (júri popular e júri oficial), melhor ator e atriz coadjuvante (Márcio Vito e Dila Guerra) e roteiro (Rafael Dragaud).  “Foi uma surpresa para mim e para a Dila Guerra também. São muitos personagens, é uma troca de bola constante. Surpreendeu porque poderia ser qualquer um de nós, poderia ter ido para qualquer outra pessoa com muita justiça”, conta Márcio Vito sobre o prêmio recebido em Paulínia.

Em Cannes, a exibição no festival serviu para confirmar a qualidade de “5x Favela”, mesmo tendo outros filmes com uma temática parecida sendo passados no evento. “Tivemos uma recepção pré-filme que foi muito legal. Depois, podia ser só mais uma delicadeza do público e acabou que isso se multiplicou por 10. Fomos muito aplaudidos. Era muito legal estar lá e ver uma senhora francesa com uma bolsa do festival de 30 anos atrás. Estar lá já era do caralho e além disso conseguir tocar as pessoas, foi incrível”, relembra Vito.

A experiência de ir para Cannes este ano foi ainda mais marcante para Márcio Vito, pois ano passado o ator não pode ir para o festival representar o longa “No Meu Lugar”, de Eduardo Valente, por estar gravando “Caminho das Índias”, da TV Globo. E se não bastasse ter ido com “5x Favela”, Vito também  foi ao evento francês com o filme “A Alegria’, de Felipe Bragança e Marina Meliande, que estreia na segunda semana de setembro. “Tive a sorte de ir com dois filmes esse ano. Ano passado quando não conseguir ir eu pensei que nunca mais iria para Cannes”, afirma o ator.

A banalização dos filmes sobre a violência nas favelas e o cotidiano nas comunidades foi uma preocupação inicial para Márcio Vito quando ele foi convidado para fazer o papel do eletricista Lopes no episódio “Acende a Luz”, de Luciana Bezerra. “Escutava muito as pessoas falando que não aguentavam mais essa temática de favela”, revela Vito, que viu essa rusga se dissipar quando soube que o projeto seria encabeçado por sete diretores iniciantes, todos saídos de comunidades. “Tudo depende de como você conta uma história. Fale sobre o que você conhece. Para ser universal, descreva seu quintal, olhe para dentro de si. Esse filme tem essa essência, se tem alguém que pode falar de favela é quem mora lá.”

Após o reconhecimento da crítica pelo trabalho em “5x Favela”, Márcio Vito recebeu alguns convites de trabalho, mas prefere manter a postura que sempre teve em sua carreira, de continuar atuando naquilo que lhe dá prazer e com pessoas legais, que ele confia. No currículo do ator estão trabalhos na TV (“Malhação ID”, “Força-Tarefa”, “Caminho das Índias”), teatro e cinema (“Meu Nome Não É Johnny”, “Muito Gelo e Dois Dedos d’Água”, “Quase Dois Irmãos” e “A Ostra e o Vento”).

Ao ser questionado sobre qual dessas áreas da dramaturgia mais o agradava, Márcio Vito citou o falecido ator Fernando Torres, com quem contracenou em “A Ostra e o Vento”. “Onde precisar de um ator eu quero que pensem em mim”, afirmou o ator, que completou. “Eu sou ator, se precisar de um ator para animar uma festa de crianças, eu to dentro. Tem gente que fala que faz teatro porque ama, TV porque precisa e cinema porque merece. Pra mim isso é uma piada.”

VEJA A MATÉRIA AQUI!

E vamos em frente, o filme já está em cartaz!

Confira aqui a PROGRAMAÇÃO nos cinemas!


1

Luciana Bezerra e seu ‘Acende a Luz’ (entrevista)

Por: 5xFavela
  • Facebook
  • Orkut
  • Twitter

Luciana BezerraNa expectativa da estréia de 5x Favela, Agora por nós mesmos, publicamos a entrevista que a diretora Luciana Bezerra (Acende a Luz) concedeu à revista Le Filme Fraçais. Confiram!

Quais as condições em que o filme foi filmado?

O 5x Favela foi filmado usando as leis de incentivo do Governo, que permitem que você capte recursos financeiros junto a empresas privadas. A Luz Mágica, produtora do filme, é uma produtora especializada em cinema e a ideia do filme nasceu da cabeça do diretor da produtora, então este é, antes de ser um filme com argumento e direção que levam minha assinatura, um projeto de Carlos Diegues. E acredito que sua  qualidade e sua realização só foram possíveis por ser um projeto deste cineasta.

Qual a principal dificuldade que você encontrou durante a aventura de fazer o filme e qual eventual ensinamento que você tirou dela?

O Acende a Luz é um filme de muitos atores, o que sempre causou tensão em todos, pois teríamos, numa mesma cena, 28 atuando em um curta-metragem. Essa era a premissa de meus pesadelos pré-filmagem. Durante, nós fomos surpreendidos por uma frente fria com uma história que se passa em alto verão. E o mal tempo tornou-se, então, nossa maior dificuldade. Meu maior ensinamento foi sem dúvida: Cinema é feito de soluções.

Que concepção você tem de seu ofício de realizadora e/ou produtora?

Quando você pensa em realizar um filme, começa a tomar posse dele. A pensá-lo como um todo, a criar soluções. O que? Quais? Cada movimento, cada tempo para cada diálogo. Indagaremos cada uma daquelas cenas. E, durante todo o processo de levantar seu filme, algumas vezes comungaremos com nossa equipe, que nos ajudará dando as soluções para as nossas soluções. Mas existem também as equipes que teremos que lutar contra e muitas vezes combatê-las, para não nos trair. Eu tenho amado minhas equipes. E tenho sido ajudada em minhas realizações.  Porque, ao contrário de um pintor ou poeta, os realizadores de cinema são os únicos que necessitam de um exército para trabalhar. No 5x Favela somos sete diretores. Por tanto sete cabeças. Tínhamos  três histórias com um diretor e duas com dois, o que causa ainda mais dificuldade. Um mundo a imprimir, mas tínhamos também a unidade que reunia esses filmes em um único filme. O pleno exercício de generosidade intelectual a serviço do cinema.

Qual o momento da realização e/ou produção que você mais gosta e por que?

O processo com os atores. Sou atriz, tenho uma longa experiência com processos criativos em uma companhia (Nós do Morro). Sempre trabalhamos com os atores construindo textos com o dramaturgo. Os processos de montagem, ao contrário do cinema, são longos, e o nível de conhecimento e intimidade entre os atores torna-se tão alto que podem se entregar totalmente e relaxar para aquelas personagens. Gosto de ensaios! Para criar a maior intimidade possível ,não só comigo, mas uns com os outros e com quem mais chegar. Para estarem preparados para tudo mais que puder acontecer.  É bom demais ver os personagens tomando corpo, vida. Sentir seus corações pulsarem! É nas veias que circula o sangue do filme. Para o 5x Favela, fizemos um trabalho fantástico tendo como mentora a Camila Amado (atriz e preparadora de elenco). Ela pregava o amor acima de tudo. Boa parceria, estávamos todos seguros no set. Isso é importante na hora de receber e agregar os integrantes da equipe que chegam.

Como você se coloca em relação à tradição cinematográfica do seu país e a sua geração?

Meu país realizou bons filmes desde o início de sua produção no cinema. Temos realizadores marcantes na cultura cinematográfica mundial, que nos deixam como herança nosso principal movimento cinematográfico,  o cinema novo.  Muita coisa aconteceu de lá para cá. Altos e baixos permeiam nossa história. Durante os anos 90, por exemplo, a atividade cinematográfica no Brasil esteve praticamente extinta, dando origem, através do filme Carlota Joaquina, à retomada do cinema brasileiro. Minha geração cresce neste contexto e nele inicia suas produções. Hoje acho que o cinema no Brasil procura ser singular, mas também busca sua diversidade. Acredito que há cinema para todos. E que ele vem se moldando às mudanças do mundo enquanto nós o criamos, vivenciamos, comemos, digerimos, na busca de construir o nosso cinema, que seja nosso, com essência tipicamente brasileira. E o que será isso?

De que forma você integra as novas tecnologias no seu trabalho e de que forma essas novas tecnologias fazem evoluir a sua concepção do cinema?

O cinema, por contar histórias, desperta o interesse de muitas pessoas e tem a possibilidade de se transformar em espetáculo coletivo. Outro fator que contribuiu para que o cinema se transformasse em meio de comunicação de massa, foi a possibilidade de se fazer várias cópias de um mesmo negativo, cópias que seriam exibidas em vários lugares simultaneamente, atingindo um público muito maior do que os espetáculos de teatro, que exigem a presença dos atores no palco em cada uma das apresentações. Hoje, com a chegada do digital e as transmissões por satélite, acredito que cada vez mais o advento do cinema chegue mais próximo de suas vocações primordiais que são o entretenimento de massa e a divulgação e disseminação de culturas pelo mundo, atingindo maiores públicos.

Em sua opinião qual a importância do Festival de Cannes e como você recebeu o anúncio de que estava na seleção oficial deste ano?

Participar de um festival como esse é como estar sonhando com os olhos abertos. Ter um filme selecionado para passar para o púbico amante e pensador de cinema é animador, pelo retorno que dá ao filme e por ser uma chance do trabalho tomar essa dimensão. No Brasil, ao ter passado pelo festival mais importante do cinema mundial, o projeto de diretores estreantes ganha incentivo e eles já podem começar suas vidas com um selo de qualidade.

Quais são os seus novos projetos?

Ainda em construção, um roteiro de longa-metragem com dois meninos. Desenvolvo uma trama urbana e jovem, sobre descoberta da sexualidade e escolhas. Como produtora, preparo um projeto para iniciar sua caminhada em busca de recursos: 1994 (Roteiro e direção: Gustavo Melo).  O documentário Copa Vidigal – jogando pela paz (Dir: Luciano Vidigal) está em fase de finalização, ainda sem data de estréia. E em setembro deste ano tem a cine-instalação para a exposição no Centro Itaú Cultural, em São Paulo: Travelling Zona Norte (Gustavo Melo). Em agosto, junto ao lançamento do 5x favela no Brasil, lanço um livro pela coleção Tramas Urbanas da editora Aeroplano: Meu destino era o Nós do Morro.


0

Luciano Vidigal:”Chegou a vez do povo filmar o povo”.

Por: 5xFavela
  • Facebook
  • Orkut
  • Twitter

Luciano Vidigal no set do filme Concerto Para Violino

Tá chegando a hora do lançamento do filme! É no dia 27 de agosto, não esqueçam! Hoje vamos conhecer um pouco mais do diretor Luciano Vidigal (Concerto para Violino) que concedeu essa entrevista para a revista Le Film Français! Não percam!

Quais as condições em que o filme foi filmado?

Nas melhores condições possíveis. Filmamos em película, com emoção, conforto e com muita cultura brasileira. É muito gratificante quando você ganha respeito através do seu trabalho. Acredito e sou otimista que o 5x favela, Agora Por Nós Mesmos  vai trazer respeito para nós cineastas oriundos das favelas.

Qual a principal dificuldade que você encontrou durante a aventura de fazer o filme e qual o eventual ensinamento que vc tirou dela?

Na fase de roteiro. Você tem de concretizar toda a humanidade possível, fugir dos clichês e trabalhar sua simplicidade e criatividade. Não é fácil… O ensinamento que vou levar pra minha vida é que arte tem poder inacreditável, que é lindo transformar através do cinema.

Que concepção você tem de seu ofício de realisador e/ou produtor?

Que somos uma geração de cineasta que tivemos o privilégio e estrutura para expressar um outro ponto de vista sobre o povo brasileiro. Chegou a vez do povo filmar o povo.

Qual o momento da realização e/ou produção que você mais gosta e por que?

Gosto do momento em que estamos no ato da filmagem. Acho singular e mágico ver a nossa imaginação presente e ao vivo.

Como você se coloca em relação a tradição cinematográfica do seu pais e a sua geração?

No Brasil, especificamente, não é fácil realizar filmes, por várias questões politicas e capitalistas, mas acho que a minha geração está conseguindo uma expressão, também através da tecnologia digital.

De que forma você integra as novas tecnologias no seu trabalho e  na sua concepção do cinema?

A minha maior forma de trabalhar com a tecnologia são as manifestações populares, ou seja o povo. Acho que temos a obrigação de acompanhar a evolução tecnológica e sempre tentar a inclusão no mercado de trabalho através da qualidade.

Na sua opinião qual a importância do Festival de Cannes e como você recebeu o anuncio de que estava na seleção oficial deste ano?

Como todos devem saber, o festival de Cannes é o maior festival de cinema do mundo. Todos os países do mundo estão participando e observando os filmes que passam por lá. Uma grande chance de mostrar seu trabalho e consegui novas oportunidades para seu filme ou mesmo para seu próximo projeto.

Quais são os seus novos projetos?

Estou finalizando um longa documentário, chamado “Copa Vidigal”, que eu dirigi. O filme retrata a trajetória de um professor de futebol, da favela do Vidigal, que organiza um campeonato depois de uma longa e violenta guerra entre traficantes, com o objetivo de trazer a paz para um lugar traumatizado. Atualmente é o projeto dos meus sonhos. Estou totalmente envolvido com o conteúdo dos personagens do documentário.


1

Entrevista com Manaíra Carneiro

Por: 5xFavela
  • Facebook
  • Orkut
  • Twitter

Antes de viajar para representar o 5x Favela na sessão especial do Festival de Gramado, que acontece no dia 07, nós reproduzimos a entrevista que a diretora Manaíra Carneiro (Fonte de Renda) deu para a revista Le Film Français. Confiram!

Quais as condições em que o filme foi filmado?

A equipe surgiu de oficinas de cinema oferecidas para jovens que moram em favelas cariocas. Durante as filmagens esses jovens uniram-se a profissionais experientes da área, o que possibilitou a troca de habilidades entre as duas gerações de profissionais no cinema brasileiro.

Qual a principal dificuldade que você encontrou durante a aventura de fazer o filme e qual o eventual ensinamento que vc tirou dela?

A divisão da direção do filme com meu companheiro Wagner Novais exigiu mais empenho dos dois no filme, pois tínhamos que desenvolver ali um método de trabalho diferente ao qual estávamos habituados, mas o resultado foi a soma de duas visões de mundo que se uniram e puderam se expressar de forma singular. O maior ensinamento que tiro do filme foi o poder do trabalho em grupo e o entendimento de como funciona a criatividade colaborativa.

Que concepção você tem de seu ofício de realizador e/ou produtor?

Entendo como uma ferramenta de mudança. O cinema para mim é a mediação entre o que o mundo é e o que ele pode ser. Uma ferramenta que transgride mediocridades do dia-a-dia. Porque para viver é preciso muito mais que a rotina, é preciso sonhar e empreender seus sonhos. Ás vezes sou mais empreendedora de sonhos.

Qual o momento da realização e/ou produção que você mais gosta e por que?

Gosto da criação do roteiro, porque é a primeira forma palpável de uma idéia; primeiro ela vira um aglomerado de palavras, depois vira vozes e gestos de atores que personificam a história, e depois, enfim, ela vira imagens que tomam formas por si mesmas, e acabam não me pertencendo mais. Gosto muito desses processos de transformação da linguagem, em especial dos ensaios e direção de atores, pois ali se enxerga a alma dos personagens.

Como você se coloca em relação à tradição cinematográfica do seu pais e a sua geração?

Me sinto parte de um movimento que busca a democratização dos meios de expressão. Acho que é um rumo sem volta, estamos pluralizando as vozes. E me sinto parte disso, pois é isso que busco em meu cinema. Vejo essa pluralização como um benefício enorme para o cinema brasileiro, pois é um cinema que vem crescendo e que já sofreu muito em outras épocas, e necessário num país com muitas nuances.

De que forma você integra as novas tecnologias no seu trabalho e você pensa que forma essas novas tecnologias fazem evoluir a sua concepção do cinema?

Só pude ter acesso ao cinema por causa das novas tecnologias, então para o meu trabalho, é natural o uso delas. È quase impossível não me utilizar da internet, de câmeras digitais e softwares de edição. Já nasci submersa nesse meio. Com certeza a concepção de cinema evolui através delas, cinema se reinventa o tempo todo, está sempre aliando o técnico e o humano , as novas tecnologias são indispensáveis para sua evolução.

Na sua opinião qual a importância do Festival de Cannes e como você recebeu o anuncio de que estava na seleção oficial deste ano?

Quando soube da notícia passou minha vida toda pela cabeça, o quanto trabalhamos para que desse certo. Na verdade ainda estou digerindo é a minha primeira viajem internacional, primeiro longa. É a estréia de muitos eventos na minha vida.

Quais são os seus novos projetos?

Estou finalizando um roteiro de animação na escola de Cinema Darcy Ribeiro, têm muitas ideias, difícil organizá-las, até. Mas quero fazer essa animação experimentar muitas outras coisas.