5 Favelas, 7 diretores, 9 oficinas, 559 inscritos e infinitas histórias pra contar
Rio de Janeiro, 9 de março de 2009, essa data marca o início de quando a história do projeto “5x Favela, Agora por nós Mesmos” na época ainda chamado de “eles mesmos”, começou verdadeiramente na minha opinião. Nessa dia estávamos eu e a amável produtora Bia Castro entrando na Comunidade da Maré, no núcleo do Observatório de Favelas, para o primeiro dia de inscricões para as oficinas preparatórias do filme.
Até então, com apenas 21 anos, não tinha percebido o quanto o projeto era maravilhoso e grandioso. O quanto aquela simples inscrição nas oficinas de preparação significava para aquelas pessoas. Enxergavam aquela oportunidade como uma forma de futuro. Um inicio na carreira cinematográfica.
E assim foi durante toda a semana, cada dia numa comunidade, centenas de pessoas inscritas, muitas histórias contadas. Na grande maioria, relatos de partir o coração.
Lembro como se fosse hoje eu entrando em Parada de Lucas, sem conhecer nada, ao entrar numa rua indicada vejo troncos de madeira e grandes pedaços de pedra interceptando a passagem de carro. Na hora pensei e comentei com a Bia: “Será que podemos passar?”. E ela me respondeu corajosamente: “Se não podemos, nós iremos, pois já tem mais de 40 pessoas nos esperando no AfroReggae”. E lá fomos nós para mais um dia de inscrições.
Das 559 pessoas inscritas devo confessar que uma história em especial me sensibilizou. A história de Valdir do Nascimento. O roteiro não poderia ser tão perfeito e graças ao talento dele até então totalmente desconhecido, ele poderá tornar o sonho dele realidade.
Era a vez do Vidigal e lá estava a dupla dinâmica realizando as inscrições no Nós do Morro. Sem dúvida o dia mais intenso nas inscrições das oficinas. Eram muitas pessoas, dúvidas e alguns pontos na ficha de inscrição que precisavam ser checados para saber se tinham sido preenchido corretamente.
Ao pegar uma ficha já preenchida, notei que não tinha nem o endereço nem o telefone. Achei muito estranho e começei a chamar o nome, para poder identificar a pessoa. Até que sobe a escada um rapaz, meio sem graça, sem entender do porque estar sendo chamado diz:
- O Sr. chamou Valdir do Nascimento?
- Sim, é porque na sua ficha você não colocou nem endereço e nem telefone.
E na resposta dele, na voz baixa e envergonhada começou a sua história.
- O Sr. me desculpe, mas é que eu cheguei no Rio faz uma semana da Paraíba e não decorei o nome da minha rua. E como eu não conheço ninguem ainda, não posso te dar nenhum telefone, pois eu também não tenho celular.
Agora era a minha vez de não saber pra onde olhar. Totalmente sem graça, reparei em sua ficha que tinha optado pela oficina de elenco, e perguntei:
- Porque optou pela oficina de elenco? E veio mais uma resposta de rachar um coração no meio.
- Porque meu sonho é ser ator. E nessa oficina eu posso aprender e quem sabe aparecer no cinema lá na Paraíba pra todos meus familiares terem orgulho de mim. Sem resposta, o parabenizei pela iniciativa e me despedi perguntando como faria pra entrar em contato.
Graças ao seu talento, ele despertou durante as oficinas um grande interesse no brilhante Diretor Luciano Vidigal, que o queria para o papel de um dos policiais. E aí começou a saga para achar o “Valdir do Nascimento”, visto que sem telefone era humanamente impossível a comunicação com ele. Felizmente o nosso produtor de elenco, Raoni Seixas, conseguiu localiza-lo, ele passou em todos os testes de elenco e enfim conseguirá encher de orgulho seus familiares na Paraíba.
Cada segundo vivido desde as inscrições, passando pelas oficinas até os dias exaustivos de filmagem, eu pude perceber no olhar daquelas pessoas que não era apenas um filme que eles estavam produzindo e participando. Era muito mais. Uma vida que estava começando. Muitas pessoas tinham largado o emprego pra começar dentro de uma area que sempre sonhou trabalhar, mas pela falta de oportunidade, nunca puderam tornar o sonho realidade.

Valdir dos Nascimento nas filmagens do Concerto para Violino na Maré
Em cada favela, beco ou casa que entrei durante a produção do filme pude perceber que a vida é exatamente igual a que vejo diariamente na zona sul da cidade, guardadas as devidas proporções quanto ao nivel social, mas me refiro as pessoas. Nesses locais pude ver o valor a vida, o quanto precisamos ser humanos e saber que seja no Leblon ou no Vidigal, no Jardim Botânico ou na Maré, temos que viver numa comunidade, como vi em cada local visitado. E não viver numa prisão domiciliar como é muito comum nos prédios da classe media que muitas das vezes, se não fosse as reuniões de condomínio, nem o seu vizinho você saberia quem é.
Diante disso, gostaria de finalizar agradecendo à todas as pessoas que estiveram junto comigo nesse projeto e dizer que absorvei como nunca, cada segundo ao lado dessas pessoas maravilhosas que acima de tudo são referência, não só pelos seus talentos cinematográficos, mas como seres humanos. Fica a saudade daquele dia a dia maravilhoso das oficinas e filmagens e principalmente a anciedade de ver nas telas do cinema seja em imagem ou nos créditos finas, as pessoas que estiveram comigo desde o inicio das inscrições do projeto.