Arroz com Feijão

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Cacau Amaral e Cadu Barcellos no Porradão de 20!

Por: Celso Athayde - CUFA
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Cacau e Cadu

Cacau Amaral e Cadu Barcelos (foto: www.celsoathayde.com.br/2010)

O Porradão de hoje é com dois daqueles que estão se destacando como as mais bem-sucedidas promessas do cinema nacional, tendo dirigido dois curtas que compõe o filme “5 X Favela – Agora por nós mesmos”.

Cadu Barcellos, 22 anos, integrante da organização Observatório das Favelas. Morador do Complexo da Maré e diretor do filme “Deixa Voar”.

Cacau Amaral, 36 anos, vive em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Dirigiu junto com Rodrigo Felha o filme “Arroz com feijão”.

Desliguem os celulares que a sessão já vai começar!

Quem eram vocês antes e quem são agora?

01 Cadu Barcellos: Eu era o Cadu Barcellos, morador do Complexo da Maré, um moleque de 23 anos que pra muitos estava remando contra a maré querendo fazer cinema, uma arte elitista, e cara que meus amigos familiares e vizinhos não viam como algo para um favelado. Hoje sou o Cadu Barcellos, morador do complexo da Maré, Cineasta que provou a muita gente que podemos sim ser cineastas, advogados, médicos, astronautas, atores e etc.

2 – Cacau Amaral: A mídia se interessou muito por nossas histórias e entendo isso como uma coisa boa. Mesmo sabendo que internamente não muda muita coisa. Sou o mesmo Cacau Amaral de cinco anos atrás, mas com uma oportunidade a mais de aumentar o bolo de amizade e cooperação profissional. Fazia filmes com meus amigos da CUFA, do Mate com angu e sempre esbarrava com outras galeras pelos festivais e debates, mas agora pude me aproximar muito mais do Vidigal, da Maré… Conheci pessoas muito bacanas e levo isso pra minha vida.

Um dos pontos comuns em todos os curtas que compõem o filme, seja na leveza e ingenuidade que propõe alguns temas ou no peso que propõe outros, é que a noção de certo e de errado é relativa. Essa noção de ética já foi uma dúvida em algum momento da vida de vocês?

3- Cadu Barcellos: O que é certo ou errado, a linha da legalidade e da moralidade são bem mutáveis pra quem mora na favela e pra mim não é diferente. Tive dúvidas em muitos momentos e acho que posso voltar a tê-las e acho isso muito bom porque me faz refletir sobre o espaço em que vivo e a sociedade em que eu ando, crio, recrio, discuto e quero mudar.

4- Cacau: Tive uma infância isolada dentro de meu bairro. A única experiência cultural fora dele era assistir o filme dos Trapalhões no fim do ano e ver o Papai Noel chegar de helicóptero no Maracanã, tudo nas férias de verão. Durante todo resto do ano, aprendia uma ética muito peculiar com meus vizinhos e quando comecei a frequentar o centro da cidade tive vergonha dessa forma de pensar. Tentei imitar as pessoas de outros lugares, mas o convívio com vários pensadores me trouxe referências que me fizeram perceber a babaquice que estava praticando e inverti o processo de novo: passei a negar a cultura hegemônica e a gritar que minha cultura é que era foda. Hoje vejo que tudo valeu. Esse transitar me fez gozar um novo momento, onde pude agregar experiências de todos os lados e engrossar meu banco cultural.

O título do “agora por nós mesmos” sugere a mensagem de que foram necessários quase 50 anos para que um filme intitulado “5 vezes favela” fosse realmente dirigido por moradores de favelas. O que no cenário do cinema nacional atual favorece a realização de produtores de favelas e periferias e quais ainda continuam sendo os principais empecilhos?

5- Cadu Barcellos: O que ajuda é o “boom” tecnológico com câmeras digitais, celulares, agora câmeras HD’s que permitem que a gente experiente, faça e faça, coloque a mão na massa. Mas ao mesmo tempo muitos de nossos filmes não têm visibilidade e mercadologicamente falando ainda não fomos inteiramente absorvidos.

6- Cacau: O grito da periferia passa a ser ouvido. Essa voz sempre ecoou em três aspectos: num primeiro momento como um lamento infinito, sem saída; depois como o apontamento de um caminho de desgraça para ambos os lados e num terceiro momento tendo como propósito maior a visão de solidariedade. À medida que os mais privilegiados entendem que a segregação trará consequências para eles mesmos, cria-se esse terceiro momento onde aparentemente a união reina entre a população. Mas sabemos que no fundo isso é só um apontamento, uma vontade. Lutamos para que essa idéia se torne uma união de fato, pois hoje ela acontece apenas entre uma minoria. Tenho fé que 5x favela – agora por nós mesmos contribuirá para esse futuro que tentamos imprimir.
O principal empecilho é o preconceito. Não podemos achar que todo brasileiro tem a mente aberta, pois nem todo mundo teve a oportunidade de conhecer seu país. Se não conhecemos o outro não podemos enxergá-lo como nós mesmos, mas à medida que temos acesso a essas pessoas, temos a oportunidade de sentir na pele o que eles sentem. Acredito que nosso filme é uma oportunidade para muitos brasileiros que nunca tiveram acesso à favela, o tenham através da tela do cinema. Pelo que estou percebendo as pessoas confiam no “agora por nós mesmos” e entendem nosso enquadramento da favela como uma real oportunidade de conhecê-la. A exposição desse espaço; tenso, dramático e alegre ao mesmo tempo; é a melhor forma de corroermos o preconceito, que foi construído em cinco séculos de cultura. Essa virada que vivemos hoje depende de muito trabalho até que tenhamos força para lutar de igual pra igual. Não fazemos isso pela periferia. Fazemos pelo Brasil.

“Cinco vezes favela”, lançado em 1962, ficou marcado com um dos filmes fundamentais para o advento do cinema novo. Alem do inegável legado social, o que esperam dessa nova versão ?

7- Cacau: O cinema é uma arte de vários braços, entre eles uma ferramenta de proposição de comportamentos. O cinema norte-americano passou um século impondo seu modo de ser ao resto do mundo. Não quero fazer juízo disso, mas entendo que o cinema pode e deve ser usado pela América Latina para difundir nossos valores dentro e fora dela. Fiquei feliz em ver que a crítica européia tem olhos para esse movimento e tenho muito orgulho do em fazer parte disso.

8- Cadu Barcellos: Acho que esse filme também é um marco quando penso que agora é “por nós mesmos”, são realidades, histórias que muitos já até ouviram por ai, mas não estavam impressas cinematograficamente falando, são historias que agora o mundo vai poder ver. E esse filme abre uma porta que esteve há muito tempo trancada, é mostrar um trabalho que vem sendo reconhecido pela crítica, em festivais.

Querem ler mais? A entrevista continua no site de Celso Athayde. Clique aqui e leia tudo que os diretores Cadu Barcellos (Deixa Voar) e Cacau Amaral (Arroz com Feijão, em parceria com Rodrigo Felha) falaram!

Porradão de 20

www.celsoathayde.com.br/2010


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5xfavela por Rafael Dragaud

Por: 5xFavela
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Rafael Dragaud em Cannes

- Como foi o seu trabalho no processo de desenvolvimento dos roteiros até chegar ao tratamento final?

As oficinas duraram três meses, reuniram mais de 200 alunos e aconteceram em ONGs que funcionam no Vidigal (Nós do Morro), Parada de Lucas (AfroReggae), Lapa (Cinemaneiro, atendendo várias comunidades), Complexo do Alemão (Central Única das Favelas) e Complexo da Maré (Observatório das Favelas). Num primeiro momento, os alunos foram convidados a se sentir capazes de criar um filme.

A idéia era: vocês podem sim fazer um filme! E que tipo de filme seria esse? O que importa num filme? O que é um filme bom pra vocês? Como fazer um filme que seja a sua cara, e não a cara da novela ou de outros filmes que não representam a favela?  Em seguida, eles apresentavam ideias, sentimentos, e passamos algumas aulas transformando essas coisas em argumentos de cinco linhas e clareando ideias, trajetórias, conflitos. Essa etapa foi dedicada a todos entenderem sobre o que é a proposta do filme, pois em cinco linhas só se comunica o essencial.

Depois que cada um conseguiu fechar um argumento de cinco linhas minimamente claro, aí sim rolou a votação. Depois do melhor argumento eleito, dividi a turma em grupos e comecei a ensinar como desenvolver uma sinopse de 15 linhas com todos os personagens da trama e com começo, meio e fim. Depois dessa etapa, elegemos as melhores ideias das sinopses e as reunimos em uma única sinopse. Em seguida, ensinei a fazer uma escaleta, seguindo esse mesmo processo. Escolhemos os melhores momentos das escaletas dos quatro grupos e reunimos numa escaleta única. Depois, ensinei a fazer cenas e diálogos. Mais uma vez, elegemos as melhores cenas e juntamos num roteiro único. Por fim, fizemos um polimento final para que as cenas tivessem unidade de intenção, linguagem e ritmo.

- Qual era sua expectativa inicial sobre o projeto 5xFavela? Quais desafios você via no projeto?

Eu não crio muita expectativa com meus projetos. Mas posso te garantir que jamais imaginei que alcançaríamos um resultado tão coeso e tão diverso ao mesmo tempo, tão relevante… Cannes, etc.. Os desafios são aqueles que têm a ver com todo projeto pioneiro: quebrar as barreiras, criar novos modelos, preconceito, descrença… Alias uma coisa que me surpreendeu muito nesse filme foi a dificuldade em conseguirmos apoio. Não consigo imaginar que algo que tenha o Caca na coordenação geral e que seja tão importante pro Brasil tenha essa dificuldade.. Mas foi o que aconteceu. Se não fosse a teimosia do Cacá e da Renata esse projeto ficaria numa gaveta.
- Os episódios falam de pessoas e abordam sentimentos que são universais. De que forma você percebe o reflexo da vivência na favela na forma que as pessoas elaboraram o roteiro?

Acho que existe uma forma de amor que eu só percebo na favela, entre os pobres. Eu não sou a favor de romantizar a vida do pobre apenas porque ele é pobre, mas de verdade não vejo isso em outros lugares. É um jeito de viver mais mergulhado na vida. Não conheço, por exemplo, pobre blasé, deprimido, essas coisas… Pobre não têm tempo pra perder com isso!  Acho também que todos os episódios abordam de certa forma a questão da “oportunidade”. Interpreto isso como uma manifestação de um desejo muito forte do coletivo de pessoas que foram ouvidas nas oficinas. É como se a favela clamasse por oportunidade, seja ela a primeira, a segunda ou a terceira. Todo mundo tem direito e parece que a favela não. Acho que ela quis usar o filme pra poeticamente dizer isso. É lógico que disse muitas outras coisas, mas essa é que mais me marcou.

- O que esse trabalho trouxe de novo para a sua experiência profissional e/ou pessoal?

Eu dou aula de roteiro há 7 anos no curso de audiovisual da CUFA, ou seja, eu já tenho essa vivência. Mas “o novo” é o orgulho de ter contribuído com um projeto que voou mais longe e voou bonito! Esse projeto é um marco histórico no audiovisual brasileiro. Ele fala de Brasil, de um jeito brasileiro de fazer cinema, um jeito verdadeiro e nosso. Me perguntam se acho que o filme vai bombar na bilheteria. Na boa, que os diretores e Caca não me ouçam, mas num to nem aí! Entramos pra história com esse filme. Será ótimo festejar um sucesso de bilheteria, mas pensar apenas nisso é pensar pequeno. Esse filme é sem duvida uma das coisas mais relevantes que já fiz.

- O que você considera mais audacioso no 5xFavela e por quê?
Acreditar em pessoas que ninguém acredita. quer dizer, ninguém acreditava. Porque agora não tem mais jeito! Perdeu, playboy!

- Pensando em modos de se fazer cinema, qual a diferença entre esse filme e outros que abordam a temática de favela? O que é, para você, essa visão “por nós mesmos”?

É apenas isso. Agora é a vez de a própria favela contar sua versão. Essa idéia é de uma simplicidade desconcertante. Alias, pra mim, essa é a essência da genialidade: a simplicidade. E acho que é por isso que as pessoas ficam tão impactadas.  Outro dia, eu saque um história que tem a ver com isso… Todo mundo sabe que o Gianfrancesco Guarnieri escreveu em 1958 a peça Eles Não Usam Black Tie (que depois, em 1981, inspirou o filme de mesmo nome, do Leon Hirszman). O bacana é quando o Adoniram Barbosa foi compor a música pra peça, fez uma “pequena” modificação no título.  Ele compôs um samba chamado “Nóis Não Usa os Bleque Tais”. Mudou a pessoa do verbo da mesma forma que a gente agora. Quer dizer, o Adoniram era tão operário quanto o Tião da peça que tem que furar a greve porque a namorada ta grávida e ele não pode correr o risco de perder o emprego. O Adoniram se sentiu e talvez estivesse mesmo mais próximo do Tião do que o próprio Gianfrascesco. Enfim, essa história tem a mesma natureza da que estamos falando com o Cinco Vezes Favela. As posições, as vezes ficam claras em alguns processos e  isso é bom pra todo mundo.

- Quais desafios a equipe encontrou durante o desenvolvimento do roteiro?
Falta de grana… o resto no fundo é divertido!


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Crianças de 30

Por: Cacau Amaral
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Os três primeiros filmes que realizei em minha vida foram documentários. Por isso me considerava um pouco distante da arte da interpretação. Um dia, em uma aula de direção, na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, não havia atores pra dirigirmos e me ofereci pra ser dirigido pelos colegas de classe. A dificuldade em entender o que os diretores queriam comigo me fez perceber o quanto é importante a comunicação entre essas duas figuras, diretor/ator. (mais…)


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ARROZ COM FEIJÃO

Por: 5xFavela
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Para conseguir construir um quarto para o filho único, os pais de Wesley, de 12 anos, são obrigados a reduzir o cardápio de casa a arroz com feijão. No dia do aniversário do pai, o menino se junta ao amigo Orelha e sai, sem muito sucesso, em busca de recursos para comprar um frango de presente para ele.

Direção – Rodrigo Felha & Cacau Amaral
Argumento – José Antônio Silva
Roteiro – Oficina CUFA (Cidade de Deus)

Elenco:

Juan Paiva – Wesley

Pablo Vinicius – Orelha

Ruy Guerra – Seu Manoel

Flávio Bauraqui – Raimundo

Renata Tavares – Judite


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Aluno e professor ao mesmo tempo

Por: 5xFavela
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Rui Guerra, o prestigiado diretor de filmes como “Os Cafajestes”, “Os Fuzis”, “Ópera do Malandro” e “Erendira” participou como ator do episódio Arroz com Feijão do filme “5x Favela agora por nós mesmos”. Ele interpretou o “Seu Manoel” dono do aviário. Este não é o primeiro trabalho de Guerra como ator, mas segundo um dos diretores do filme, Rodrigo Felha, a participação do consagrado cineasta foi mágica e generosa.
Segundo Felha, Guerra se pôs a serviço do personagem contribuindo com a sua sensibilidade e permitindo que os novos diretores (ele e Cacau Amaral) o conduzissem com total liberdade de ação.