Na expectativa da estréia de 5x Favela, Agora por nós mesmos, publicamos a entrevista que a diretora Luciana Bezerra (Acende a Luz) concedeu à revista Le Filme Fraçais. Confiram!
Quais as condições em que o filme foi filmado?
O 5x Favela foi filmado usando as leis de incentivo do Governo, que permitem que você capte recursos financeiros junto a empresas privadas. A Luz Mágica, produtora do filme, é uma produtora especializada em cinema e a ideia do filme nasceu da cabeça do diretor da produtora, então este é, antes de ser um filme com argumento e direção que levam minha assinatura, um projeto de Carlos Diegues. E acredito que sua qualidade e sua realização só foram possíveis por ser um projeto deste cineasta.
Qual a principal dificuldade que você encontrou durante a aventura de fazer o filme e qual eventual ensinamento que você tirou dela?
O Acende a Luz é um filme de muitos atores, o que sempre causou tensão em todos, pois teríamos, numa mesma cena, 28 atuando em um curta-metragem. Essa era a premissa de meus pesadelos pré-filmagem. Durante, nós fomos surpreendidos por uma frente fria com uma história que se passa em alto verão. E o mal tempo tornou-se, então, nossa maior dificuldade. Meu maior ensinamento foi sem dúvida: Cinema é feito de soluções.
Que concepção você tem de seu ofício de realizadora e/ou produtora?
Quando você pensa em realizar um filme, começa a tomar posse dele. A pensá-lo como um todo, a criar soluções. O que? Quais? Cada movimento, cada tempo para cada diálogo. Indagaremos cada uma daquelas cenas. E, durante todo o processo de levantar seu filme, algumas vezes comungaremos com nossa equipe, que nos ajudará dando as soluções para as nossas soluções. Mas existem também as equipes que teremos que lutar contra e muitas vezes combatê-las, para não nos trair. Eu tenho amado minhas equipes. E tenho sido ajudada em minhas realizações. Porque, ao contrário de um pintor ou poeta, os realizadores de cinema são os únicos que necessitam de um exército para trabalhar. No 5x Favela somos sete diretores. Por tanto sete cabeças. Tínhamos três histórias com um diretor e duas com dois, o que causa ainda mais dificuldade. Um mundo a imprimir, mas tínhamos também a unidade que reunia esses filmes em um único filme. O pleno exercício de generosidade intelectual a serviço do cinema.
Qual o momento da realização e/ou produção que você mais gosta e por que?
O processo com os atores. Sou atriz, tenho uma longa experiência com processos criativos em uma companhia (Nós do Morro). Sempre trabalhamos com os atores construindo textos com o dramaturgo. Os processos de montagem, ao contrário do cinema, são longos, e o nível de conhecimento e intimidade entre os atores torna-se tão alto que podem se entregar totalmente e relaxar para aquelas personagens. Gosto de ensaios! Para criar a maior intimidade possível ,não só comigo, mas uns com os outros e com quem mais chegar. Para estarem preparados para tudo mais que puder acontecer. É bom demais ver os personagens tomando corpo, vida. Sentir seus corações pulsarem! É nas veias que circula o sangue do filme. Para o 5x Favela, fizemos um trabalho fantástico tendo como mentora a Camila Amado (atriz e preparadora de elenco). Ela pregava o amor acima de tudo. Boa parceria, estávamos todos seguros no set. Isso é importante na hora de receber e agregar os integrantes da equipe que chegam.
Como você se coloca em relação à tradição cinematográfica do seu país e a sua geração?
Meu país realizou bons filmes desde o início de sua produção no cinema. Temos realizadores marcantes na cultura cinematográfica mundial, que nos deixam como herança nosso principal movimento cinematográfico, o cinema novo. Muita coisa aconteceu de lá para cá. Altos e baixos permeiam nossa história. Durante os anos 90, por exemplo, a atividade cinematográfica no Brasil esteve praticamente extinta, dando origem, através do filme Carlota Joaquina, à retomada do cinema brasileiro. Minha geração cresce neste contexto e nele inicia suas produções. Hoje acho que o cinema no Brasil procura ser singular, mas também busca sua diversidade. Acredito que há cinema para todos. E que ele vem se moldando às mudanças do mundo enquanto nós o criamos, vivenciamos, comemos, digerimos, na busca de construir o nosso cinema, que seja nosso, com essência tipicamente brasileira. E o que será isso?
De que forma você integra as novas tecnologias no seu trabalho e de que forma essas novas tecnologias fazem evoluir a sua concepção do cinema?
O cinema, por contar histórias, desperta o interesse de muitas pessoas e tem a possibilidade de se transformar em espetáculo coletivo. Outro fator que contribuiu para que o cinema se transformasse em meio de comunicação de massa, foi a possibilidade de se fazer várias cópias de um mesmo negativo, cópias que seriam exibidas em vários lugares simultaneamente, atingindo um público muito maior do que os espetáculos de teatro, que exigem a presença dos atores no palco em cada uma das apresentações. Hoje, com a chegada do digital e as transmissões por satélite, acredito que cada vez mais o advento do cinema chegue mais próximo de suas vocações primordiais que são o entretenimento de massa e a divulgação e disseminação de culturas pelo mundo, atingindo maiores públicos.
Em sua opinião qual a importância do Festival de Cannes e como você recebeu o anúncio de que estava na seleção oficial deste ano?
Participar de um festival como esse é como estar sonhando com os olhos abertos. Ter um filme selecionado para passar para o púbico amante e pensador de cinema é animador, pelo retorno que dá ao filme e por ser uma chance do trabalho tomar essa dimensão. No Brasil, ao ter passado pelo festival mais importante do cinema mundial, o projeto de diretores estreantes ganha incentivo e eles já podem começar suas vidas com um selo de qualidade.
Quais são os seus novos projetos?
Ainda em construção, um roteiro de longa-metragem com dois meninos. Desenvolvo uma trama urbana e jovem, sobre descoberta da sexualidade e escolhas. Como produtora, preparo um projeto para iniciar sua caminhada em busca de recursos: 1994 (Roteiro e direção: Gustavo Melo). O documentário Copa Vidigal – jogando pela paz (Dir: Luciano Vidigal) está em fase de finalização, ainda sem data de estréia. E em setembro deste ano tem a cine-instalação para a exposição no Centro Itaú Cultural, em São Paulo: Travelling Zona Norte (Gustavo Melo). Em agosto, junto ao lançamento do 5x favela no Brasil, lanço um livro pela coleção Tramas Urbanas da editora Aeroplano: Meu destino era o Nós do Morro.