
Rafael Dragaud em Cannes
- Como foi o seu trabalho no processo de desenvolvimento dos roteiros até chegar ao tratamento final?
As oficinas duraram três meses, reuniram mais de 200 alunos e aconteceram em ONGs que funcionam no Vidigal (Nós do Morro), Parada de Lucas (AfroReggae), Lapa (Cinemaneiro, atendendo várias comunidades), Complexo do Alemão (Central Única das Favelas) e Complexo da Maré (Observatório das Favelas). Num primeiro momento, os alunos foram convidados a se sentir capazes de criar um filme.
A idéia era: vocês podem sim fazer um filme! E que tipo de filme seria esse? O que importa num filme? O que é um filme bom pra vocês? Como fazer um filme que seja a sua cara, e não a cara da novela ou de outros filmes que não representam a favela? Em seguida, eles apresentavam ideias, sentimentos, e passamos algumas aulas transformando essas coisas em argumentos de cinco linhas e clareando ideias, trajetórias, conflitos. Essa etapa foi dedicada a todos entenderem sobre o que é a proposta do filme, pois em cinco linhas só se comunica o essencial.
Depois que cada um conseguiu fechar um argumento de cinco linhas minimamente claro, aí sim rolou a votação. Depois do melhor argumento eleito, dividi a turma em grupos e comecei a ensinar como desenvolver uma sinopse de 15 linhas com todos os personagens da trama e com começo, meio e fim. Depois dessa etapa, elegemos as melhores ideias das sinopses e as reunimos em uma única sinopse. Em seguida, ensinei a fazer uma escaleta, seguindo esse mesmo processo. Escolhemos os melhores momentos das escaletas dos quatro grupos e reunimos numa escaleta única. Depois, ensinei a fazer cenas e diálogos. Mais uma vez, elegemos as melhores cenas e juntamos num roteiro único. Por fim, fizemos um polimento final para que as cenas tivessem unidade de intenção, linguagem e ritmo.
- Qual era sua expectativa inicial sobre o projeto 5xFavela? Quais desafios você via no projeto?
Eu não crio muita expectativa com meus projetos. Mas posso te garantir que jamais imaginei que alcançaríamos um resultado tão coeso e tão diverso ao mesmo tempo, tão relevante… Cannes, etc.. Os desafios são aqueles que têm a ver com todo projeto pioneiro: quebrar as barreiras, criar novos modelos, preconceito, descrença… Alias uma coisa que me surpreendeu muito nesse filme foi a dificuldade em conseguirmos apoio. Não consigo imaginar que algo que tenha o Caca na coordenação geral e que seja tão importante pro Brasil tenha essa dificuldade.. Mas foi o que aconteceu. Se não fosse a teimosia do Cacá e da Renata esse projeto ficaria numa gaveta.
- Os episódios falam de pessoas e abordam sentimentos que são universais. De que forma você percebe o reflexo da vivência na favela na forma que as pessoas elaboraram o roteiro?
Acho que existe uma forma de amor que eu só percebo na favela, entre os pobres. Eu não sou a favor de romantizar a vida do pobre apenas porque ele é pobre, mas de verdade não vejo isso em outros lugares. É um jeito de viver mais mergulhado na vida. Não conheço, por exemplo, pobre blasé, deprimido, essas coisas… Pobre não têm tempo pra perder com isso! Acho também que todos os episódios abordam de certa forma a questão da “oportunidade”. Interpreto isso como uma manifestação de um desejo muito forte do coletivo de pessoas que foram ouvidas nas oficinas. É como se a favela clamasse por oportunidade, seja ela a primeira, a segunda ou a terceira. Todo mundo tem direito e parece que a favela não. Acho que ela quis usar o filme pra poeticamente dizer isso. É lógico que disse muitas outras coisas, mas essa é que mais me marcou.
- O que esse trabalho trouxe de novo para a sua experiência profissional e/ou pessoal?
Eu dou aula de roteiro há 7 anos no curso de audiovisual da CUFA, ou seja, eu já tenho essa vivência. Mas “o novo” é o orgulho de ter contribuído com um projeto que voou mais longe e voou bonito! Esse projeto é um marco histórico no audiovisual brasileiro. Ele fala de Brasil, de um jeito brasileiro de fazer cinema, um jeito verdadeiro e nosso. Me perguntam se acho que o filme vai bombar na bilheteria. Na boa, que os diretores e Caca não me ouçam, mas num to nem aí! Entramos pra história com esse filme. Será ótimo festejar um sucesso de bilheteria, mas pensar apenas nisso é pensar pequeno. Esse filme é sem duvida uma das coisas mais relevantes que já fiz.
- O que você considera mais audacioso no 5xFavela e por quê?
Acreditar em pessoas que ninguém acredita. quer dizer, ninguém acreditava. Porque agora não tem mais jeito! Perdeu, playboy!
- Pensando em modos de se fazer cinema, qual a diferença entre esse filme e outros que abordam a temática de favela? O que é, para você, essa visão “por nós mesmos”?
É apenas isso. Agora é a vez de a própria favela contar sua versão. Essa idéia é de uma simplicidade desconcertante. Alias, pra mim, essa é a essência da genialidade: a simplicidade. E acho que é por isso que as pessoas ficam tão impactadas. Outro dia, eu saque um história que tem a ver com isso… Todo mundo sabe que o Gianfrancesco Guarnieri escreveu em 1958 a peça Eles Não Usam Black Tie (que depois, em 1981, inspirou o filme de mesmo nome, do Leon Hirszman). O bacana é quando o Adoniram Barbosa foi compor a música pra peça, fez uma “pequena” modificação no título. Ele compôs um samba chamado “Nóis Não Usa os Bleque Tais”. Mudou a pessoa do verbo da mesma forma que a gente agora. Quer dizer, o Adoniram era tão operário quanto o Tião da peça que tem que furar a greve porque a namorada ta grávida e ele não pode correr o risco de perder o emprego. O Adoniram se sentiu e talvez estivesse mesmo mais próximo do Tião do que o próprio Gianfrascesco. Enfim, essa história tem a mesma natureza da que estamos falando com o Cinco Vezes Favela. As posições, as vezes ficam claras em alguns processos e isso é bom pra todo mundo.
- Quais desafios a equipe encontrou durante o desenvolvimento do roteiro?
Falta de grana… o resto no fundo é divertido!












Esta entrevista é a síntese do trabalho que resultou no filme. O trabalho no processo de desenvolvimento dos roteiros. Didática, solidariedade, linguagem cinematográfica.
É um prazer acompanhar o desenvolvimento dessas atividades.
E, depois, a assistir o filme.
Luiz Ramos